Canetas emagrecedoras podem reforçar "economia moral da magreza"
Canetas emagrecedoras podem reforçar "economia moral da magreza"
Professora da USP Fernanda Scagluiza discute padrões corporais
A difusão dos medicamentos subcutâneos voltados ao tratamento da obesidade — popularmente chamados de “canetas emagrecedoras” — vem gerando debates intensos. Embora apresentem resultados significativos e contem com o respaldo de diversas entidades médicas, seu uso sem orientação profissional ou por pessoas que não têm obesidade tem levantado preocupações.
Segundo Fernanda Scagluiza, professora das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o apelo dessas canetas está ligado ao que ela denomina “economia moral da magreza”.
Scagluiza foi uma das entrevistadas do episódio O boom das canetas emagrecedoras, exibido pelo programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, na última segunda-feira (27).
Caminhos da Reportagem: O que é a economia moral da magreza? Como ela se manifesta na violência contra pessoas gordas?
Fernanda Scagluiza: Trata-se da atribuição de valores diferentes aos corpos. Um corpo magro ou musculoso costuma ser visto como resultado de esforço, disciplina e autocontrole. Já o corpo gordo, por sua vez, é frequentemente associado a estereótipos negativos, como preguiça, falta de força de vontade, desleixo ou até incompetência — ideias que não correspondem à realidade.
É como se, no convívio social, as pessoas tivessem “fichas” em quantidades diferentes. Quem possui um corpo magro tende a acumular mais vantagens em áreas como trabalho, educação e relacionamentos. Já as pessoas gordas enfrentam o oposto: menos privilégios e mais discriminação. Sempre que há privilégio de um lado, há perda de direitos e opressão do outro.
Caminhos da Reportagem: De onde vêm esses padrões?
Fernanda Scagluiza: Padrões de beleza existem há muito tempo e mudam conforme o contexto histórico. O ponto central é que qualquer padrão limita a diversidade. Basta observar um grupo de pessoas para perceber a variedade de corpos existentes. Quando se impõe um modelo — seja de magreza extrema, “magreza saudável” ou musculatura idealizada — inevitavelmente muita gente fica de fora.
E isso não é por acaso. A exclusão alimenta uma indústria que oferece soluções para alcançar esses padrões.
Caminhos da Reportagem: Hoje, podemos dizer que nunca se é magro o suficiente?
Fernanda Scagluiza: Em muitos casos, sim. Costumo dizer que “toda gordura será castigada”. Pessoas com corpos maiores enfrentam um sistema de violência estrutural, a gordofobia, que busca marginalizá-las e reforçar sentimentos de vergonha e indignidade.
Mas a pressão não atinge apenas pessoas gordas. Mesmo quem não está acima do peso sofre com a exigência estética da magreza, em diferentes graus, dependendo de fatores como gênero e classe social. Mulheres, em geral, são mais impactadas. Hoje, qualquer pequena gordura é tratada como problema — e como oportunidade de venda de soluções, agora apresentadas como “magreza farmacológica”.
Caminhos da Reportagem: Esse movimento representa um retorno à valorização da magreza extrema?
Fernanda Scagluiza: Em certa medida, sim. A partir dos anos 2010, houve avanços com o movimento de positividade corporal, que valorizava a diversidade. No entanto, essas conquistas foram limitadas. Mesmo na moda, por exemplo, os corpos aceitos ainda seguiam certos padrões.
Agora, parece haver uma retomada da valorização da magreza extrema. Há relatos de modelos muito magras usando roupas que ainda precisam ser ajustadas por estarem largas. Isso é preocupante, especialmente para jovens, que são mais suscetíveis a essas influências.
Caminhos da Reportagem: Como essa tendência impacta as conquistas das mulheres?
Fernanda Scagluiza: Vivemos um momento delicado. Além das desigualdades de gênero, há um cenário de violência e crescimento de movimentos conservadores. Nesse contexto, o foco excessivo na aparência — como a obsessão pelo corpo magro — pode desviar a atenção de questões mais urgentes.
Existe uma ideia de que a dieta funciona como um “sedativo político” para as mulheres. A busca pela magreza, intensificada por essas tecnologias, pode acabar reforçando esse desvio de foco.
Caminhos da Reportagem: O que significa a medicalização do corpo saudável e quais seus impactos?
Fernanda Scagluiza: Medicalização ocorre quando aspectos da vida social passam a ser tratados como questões médicas. A alimentação, por exemplo, sempre foi um fenômeno cultural, mas hoje muitas vezes é vista apenas como função nutricional.
Isso se intensifica com o uso das canetas emagrecedoras. Em pesquisas recentes, algumas mulheres chegaram a descrever esses medicamentos como uma “vacina contra a fome”, tratando a fome — um mecanismo natural — como algo opcional.
Esse processo pode levar a comportamentos preocupantes, como restringir drasticamente a alimentação ou usar efeitos colaterais, como náuseas, como estratégia para comer menos. Isso compromete não apenas a saúde física e mental, mas também o papel social e simbólico da alimentação.
A alimentação saudável é um direito humano fundamental e está ligada não só à prevenção de doenças, mas também à qualidade de vida e às relações sociais. Esse equilíbrio pode ser prejudicado quando se reduz a comida a uma lógica puramente médica.
Fonte: Agencia Brasil